Sendhil Ramamurthy, o Mohinder de Heroes, concedeu uma entrevista para a equipe do site The A.V. Club, na qual foram abordados temas como sua carreira, a discriminação contra os indianos no mercado cinematográfico americano e, claro, Heroes! Confira esta entrevista fantástica, sem spoilers, mas repleta de referências ao desenvolvimento de sua personagem no seriado.
Entrevistado por Sean O’Neal
Apesar de não poder voar, ler mentes, ou parar o tempo, poucos fãs argumentariam que Mohinder Suresh não é parte essencial de Heroes. Por uma causa: é a busca de Suresh para continuar a pesquisa de seu pai quanto aos mistérios da “evolução avançada” que guiam o programa (não é coincidência Suresh ser o narrador de cada episódio). E para Sendhil Ramamurthy, o ator radicado no Texas que interpreta a personagem, ela tem feito algo mais importante do que salvar a líder de torcida. Suresh o salvou de anos lidando com a ininterrupta incapacidade de Hollywood em escalar atores indianos para papéis que não sejam variações dos estereótipos de terroristas ou de caixas de lojas e conveniência. Filho de dois médicos (sua irmã também é uma doutora) e artista com treinamento clássico de quem estudou na Royal Shakespeare Company1, Ramamurthy esteve muito próximo de abandonar totalmente a carreira de ator até que Heroes apareceu, e, com ele, a oportunidade de criar um dos personagens indianos mais reconhecidos da televisão – sem mencionar o fato de estar em um dos programas mais populares do planeta. Pouco antes da estréia da segunda temporada de Heroes, The A.V. Club conversou com Ramamurthy sobre transposição de barreiras raciais, o porquê de não ter “complexo de castração2 de poderes”, e o que os telespectadores podem esperar da surpreendente virada de Suresh nesta temporada.
The A.V. Club: Como seus pais se sentiram sobre você ser um ator ao invés de seguir os passos da família?
Sendhil Ramamurthy: Eles ficaram um pouco abatidos no começo. [Risos.] Eu fazia curso preparatório de Medicina, então eu iria entrar nos negócios da família cedo ou tarde. Mas, por sorte, eu recuperei minha lucidez, desisti, e decidi ir para uma escola de atuação. Agora, eles estão felizes por eu estar, pelo menos, interpretando um médico na TV. Eles pagaram a escola de interpretação, e quando eu estive na Royal Shakespeare Company eles voavam até a Inglaterra para assistirem às minhas peças. É claro, agora que estou na TV, eles não entendem do que diabos Heroes se trata. Toda terça-feira após a transmissão da série eu tenho de ter a conversa matinal de terça-feira e explicar a eles o que aconteceu na noite anterior.
AVC: Uma coisa da qual eles devem estar felizes é que você ajudou a quebrar os estereótipos dos atores indianos na TV. Você acredita que ainda exista um preconceito impregnado no modo como Hollywood escreve e escala para atores indianos?
SR: Creio que sim. Não há dúvidas quanto a isso. Eu tive a sorte de que eles me deram um personagem completamente diversificado na série, mas em geral, sim. E quer saber, agora, mais do que nunca, eu recebo tudo que é escrito e relacionado a indianos. Tudo chega até a minha mesa. Desde que Heroes começou, eu tive algo em torno de 15 ou 16 roteiros de filmes com personagens indianos enviados para mim, e dentre todos talvez um fosse bom. E o deprimente é que todos eles haviam sido escritos por indianos! Ora, mais quantos roteiros podem haver por aí sobre um casamento arranjado ou um marido autoritário? É a mesma coisa toda vez. Eu acho que os escritores indianos pensam que isso é o tipo de coisa que as pessoas querem ver, e isso é muito triste. Eu literalmente arremesso esses scripts pela sala tão logo começo a lê-los. [Risos]
AVC: Você disse que até se recusava em ir a testes para esses tipos de papéis. Se Heroes não tivesse surgido, o que você acha que estaria fazendo hoje em dia?
SR: Literalmente, eu tinha comprado meu livro de GMAT3, e iria fazer o teste e ingressar em uma faculdade de administração. Eu estava prestes a jogar tudo pelos ares. Eu não conseguia assumir aqueles papéis. Eu preferia fazer outra coisa. E então essa coisa caiu em meu colo. Foi bizarro. Eu estava desempregado, e acabara de nascer meu filho, e eu precisava fazer alguma coisa. Eu pensei, “Bem, de certo modo recebi uma boa chance, e pelo menos tive a oportunidade de fazer algumas ótimas atuações”. Tanto no cinema como na TV, nada estava surgindo. Eu fiz algumas participações como convidado, atuei em uma série na Inglaterra e coisas do gênero, mas nada do qual eu fosse absolutamente orgulhoso, que tivesse me dado muita notoriedade ou mesmo me estimulado como ator. Heroes apareceu e, após isso, tudo mudou. Agora eu recebo inúmeros roteiros que não têm ligação alguma a ser indiano, e eu penso que isso é maravilhoso. Eu estou muito feliz por isso.
AVC: Você já assinou com algum deles?
SR: Nenhum sobre o qual eu possa comentar. Há alguma coisa em negociação que eu espero dar certo, mas é complicado com a programação das filmagens, porque nós gravamos durante nove meses do ano. Então tenho de encontrar algo que eu ame – e se for “indiano” deve ser algo que eu possa fazer sem remorsos, algo que eu me permita fazer – e a programação deve se limitar a esses três meses. Este negócio que espero realizar agora não se trata de um filme indiano. O nome do personagem é “Miles”. Eu quero muito, muito, muito fazê-lo, mas até agora as datas não bateram. Vamos ver.
AVC: Você acabou de concluir uma turnê mundial de Heroes.
SR: Essas três últimas semanas têm sido uma turbulência. Elas foram insanas. Mas divertidas, muito divertidas. Por passar a maior parte do tempo como um ator desempregado, então você não irá me ouvir reclamando por não ter tido um dia de folga em três semanas.
AVC: Como são os fãs de Heroes mundo afora?
SR: Muito mais expressivos. [Risos] Eu e outros três colegas de elenco fomos a Tóquio, Hong Kong e Singapura. Tóquio estava tranqüilo, porque o programa ainda não chegou ao Japão, então passávamos despercebidos. As únicas pessoas que nos paravam eram turistas australianos e americanos. Em Hong Kong já se transmite, mas apenas em um canal pago até agora. Nós tivemos alguns paparazzi e pessoas nos seguindo por lá. Em Singapura toda a temporada já se passou na televisão aberta, e nós fomos a um evento com fãs que nos foi dito envolver entre 500 e 800 pessoas, mas quando chegamos lá havia aproximadamente 8000. Isso foi sinistro. Era assustador, mas legal. As pessoas gritando para você, e você esperando que elas não te matem também. O grupo que foi para a Europa também obteve essa reação. É ótimo ver que o programa não se resume apenas a esse gênero, série de ficção científica. Ele realmente tomou essa amplitude global.
AVC: Mesmo assim, ele definitivamente segue esse gênero. Você já está cansado de responder as perguntas dos aficionados sobre qual poder derrotaria outro e coisas desse tipo?
SR: [Risos] Sim, esse segmento de nossa base de fãs realmente encara tudo com muita seriedade. Você deve apenas rir sobre isso. Você também deve respeitar, porque sem eles nós não teríamos um programa. Eles são os fãs extremados nos quais sempre podemos confiar. É difícil para mim, porque eles fazem essas perguntas, e são assuntos específicos que eu nunca cogitei anteriormente. Eles me questionam sobre revistas em quadrinhos – em toda minha vida eu nunca li uma revista em quadrinhos. Eu lia Archie4 quando era criança. Eu nunca li X-Men, ou Super-Homem, ou Homem-Aranha, ou qualquer desses outros “supers”, então eu nunca tinha a resposta para estas perguntas. Eu não sou um Trekkie5. Eu nunca vi os três primeiros filmes de Guerra nas Estrelas. Apenas não é do meu gosto. Eu simplesmente passava a pergunta de modo educado aos dois colegas do elenco que eram ligados em ficção científica e os deixava respondê-las.
AVC: E quem eram eles?
SR: Masi [Oka] e – na verdade, apenas Masi. Ele sabe tudo sobre histórias em quadrinhos. Ele sabe tudo sobre... mangá, é assim que chamam? A primeira vez que alguém me perguntou sobre mangá, eu achei que ele havia falado “manga”. Honestamente, eu nunca tinha ouvido esse termo antes. Eu falei, “Por que você está me perguntando sobre frutas?”. Isso não funcionou muito bem para mim.
AVC: Ser um sucesso de crítica e de mercado na temporada de estréia deposita uma grande carga de expectativa sobre a continuação. Como o programa está lidando com isso?
SR: A continuação se inicia de modo similar à primeira temporada, com uma história grande e expansiva – e é uma história nova – mas então começa a se transformar rapidamente após isso. Estamos mais integrados. Havia muitas histórias correndo separadamente na primeira temporada, e agora tivemos um contato mais rápido na segunda temporada. Muitas de nossas histórias se entrelaçam, e eu estou trabalhando muito mais com os atores fixos do que o fiz na última temporada, o que é ótimo. Nós iremos gravar cenas onde haverá cinco ou seis de nós no mesmo ato interagindo entre si, e isso nunca aconteceu até os últimos dois ou três episódios da primeira temporada.
AVC: Todos os heroes trabalhando juntos? Soa como a Liga da Justiça.
SR: Nããão. Não terá nenhuma Liga da Justiça. [Risos] Longe disso, aliás. Há uma certa oposição no ar. É algo muito mais instigante, creio eu. Eu gosto muito mais do modo como a segunda temporada está se desenvolvendo do que da primeira temporada.
AVC: A maior – e única – reclamação sobre a primeira temporada é que o finale foi muito decepcionante. Você concorda com isso?
SR: Eu compreendo a crítica, porque havia muita expectativa para a luta entre Sylar e Peter. E eu acredito que as pessoas estavam esperando muito mais sobre isso, no que tange a efeitos especiais. Eles esperavam mais ação pelas suas apostas, a eu posso entender isso plenamente. Mas do ponto de vista da história, por iniciarmos a segunda temporada com uma trama totalmente diferente, a história tinha de ser concluída, para ligar o contexto histórico de todos de uma maneira que não deixasse finais pendentes. Esta temporada irá possuir um arco de histórias completo. Os 23 episódios da última temporada foram o “Volume Um”, e do primeiro ao décimo primeiro episódio desta temporada teremos o “Volume Dois” e essa história durará até o décimo primeiro episódio. Então uma nova trama inicia o “Volume Três”, e o “Volume Quatro” conclui a temporada. Nós estamos contando histórias mais compactas para evitar um arco com 23 episódios que pode inevitavelmente decepcionar algumas pessoas.
AVC: Qual o grau de juramento quanto aos segredos dos roteiros? Quanto da história você sabe até um dado momento?
SR: Nós pegamos um episódio por vez, e a primeira página de cada um que recebemos diz, [Lido do script] “De acordo com a produção, há tolerância zero para a revelação de páginas dos scripts ou idéias contidas aqui para qualquer pessoa estranha à equipe... Lembre-se: Nós somos uma família, e a força de uma família se mede pelos segredos que guardamos.” Essa é a primeira página de cada um dos scripts.
AVC: Bem justo. Então o que você pode nos dizer sobre a temporada que está por vir?
SR: A história no geral dispõe que os personagens principais estão separados e levando suas próprias vidas – ou tentando fazê-lo, de qualquer modo. Se a primeira temporada era sobre pessoas comuns se tornando extraordinárias, esta temporada é sobre todos tentando ser comuns. Todo mundo quer ser tão normal ou despercebido quanto possível. Minha personagem é a mais mudada. Eles realmente deram uma guinada de 180° em Suresh – o que me deixou muito feliz. Ele é um homem de ação nesta temporada. Eu acredito que isso realmente surpreenderá o público. Quando virem as coisas que Suresh faz, isso será algo pelo qual eles gritarão para a TV. Em sua essência ele ainda é a mesma pessoa, mas há algo diferente o guiando, e ele está trabalhando e mantendo contato com antigos e novos personagens, os quais ninguém imaginaria que Suresh poderia se associar. É uma coisa destemida para os roteiristas fazerem, fazer uma reviravolta dessas na personagem. Provavelmente isso funcione. Eu penso que ele é uma personagem muito mais esperta do que na temporada passada. Há muito menos desconhecimento total de Suresh enquanto todos os outros personagens e o público, exceto ele, sabiam o que estava acontecendo.
AVC: Sim, em muito da temporada passada, Mohinder – para um cientista, em princípio alguém que deveria ser naturalmente cético – parecia especialmente esperançoso. Alguns até diriam inocente.
SR: [Risos] Sim, eu acredito que ele está aprendendo sua lição, mas isso sempre será seu calcanhar de Aquiles. Em seu âmago, Mohinder é a bondade no mundo, e ele sempre verá o lado bom das pessoas. Isso poderia acabar sendo sua ruína, ou poderia culminar em algo ótimo. Ele tem uma natureza questionadora, mas ele também quer crer que as virtudes são verdadeiras em todos. Algumas vezes isso não funciona muito bem para ele. Eu penso que ele está aprendendo, não apenas sobre as pessoas, mas também sobre si mesmo. Na verdade, existem muitos momentos de introspecção nos primeiros nove episódios que filmamos até agora onde ele vê quem realmente é. Ele pode não gostar das coisas que está vendo. Ele certamente não gosta de muito do que está fazendo. Não só o público ficará chocado, mas eu creio que Mohinder está realmente abalado pelo que ele é capaz de fazer. Eu não sei se ele sequer sabia de certas coisas que seria capaz de fazer nesta temporada. É um pouco pirado. Eu tenho de admitir que, quando li o que eles prepararam para ele, eu não estava confiante. Isto é realmente diferente. Mas eu acho que isto se conectará com o público pelo fato de ser tão diferente, e porque há uma maldita boa razão para tudo isso.
AVC: A maior mudança em suas motivações tem algo relacionado com sua preocupação por Molly?
SR: Sim, eu tenho gravado várias cenas com Adair Tishler [Molly]. Ela é ótima. Basicamente, Greg Gunberg [Parkman] e eu somos como – o que seria? – Dois Solteirões e Um Bebê. Meu personagem está sempre viajando muito – eu estive em quatro ou cinco países diferentes dentro do contexto da história, e estamos apenas no nono episódio – então estou bem distante de Molly, mas ela certamente está no centro de todas as mudanças que estão acontecendo com Mohinder.
AVC: A última temporada revelou que o sangue de Mohinder é a cura para o “vírus de Shanti”. Isso se tornou um ponto alto da trama?
SR: Eu diria que esse é o ponto alto do “Volume Dois”. Tudo será sobre o vírus de Shanti, e obviamente que o sangue de Mohinder é muito importante para isso.
AVC: Você consideraria isso como o super-poder de Mohinder, que seu sangue pode curar as pessoas?
SR: Eu não vejo isso como um super-poder. Quando eu iniciei no programa, ele foi estabelecido como uma série sobre super-poderes, e eu pensei, “Que porcaria. Eu sou o único cara no maldito programa que não tem um super-poder. Isso é muito decepcionante.” Mas agora eu estou realmente agradecido que Mohinder não esteja voando, atravessando paredes e coisas do tipo, porque isso o torna mais próximo do público. Eu não chamaria de super-poder, mas eu não sei do que poderia chamá-lo. Uma anomalia genética? Eu pensei muito sobre isso. Ele foi praticamente gerado para curar o vírus de sua irmã, e esse é o porquê de seus pais decidirem tê-lo. Ele foi originado para fazer algo. Eu gosto disso nele. Mesmo que eu não diga que é um super-poder, isso é algo que certamente o guia.
AVC: Considerando que você é um dos únicos membros do elenco que não tem um super-poder – além de Jack Coleman – você já se considerou impotente?
SR: Há um certo complexo de castração surgindo. [Risos] Não, estamos todos cientes da natureza do programa e da mitologia, e isso é algo que Tim Kring [o criador] aborda em todo momento. Nós todos – e certamente Jack e eu – vemos nosso lugar dentro da mitologia. Eu me vejo buscando pela bondade neste mundo – além de ser o narrador acima de tudo. Eu sou uma espécie de olhos para todos. Eu realmente não tento mudar isso. Eu não fico perambulando pela sala dos roteiristas tentando mudar isso.
AVC: O fato de você ser o narrador parece indicar que Mohinder possui uma espécie de onisciência.
SR: Parece mesmo, e eu propositalmente nunca questionei de onde a narração está vindo. Eu não sei se ela vem de um livro que ele tenha escrito, ou se é de um livro que seu pai escreveu, como um diário. Eu tenho inúmeras teorias em minha cabeça sobre qual a verdadeira resposta, mas creio que apenas Tim Kring saiba e eu nunca, jamais perguntei a ele. Eu acho que chegará em um ponto onde eu vou querer saber. Se ele irá me contar ou não é outra história. Nesse momento eu estou bem com esse desconhecimento.
AVC: Isso lhe dá um sentimento de garantia de emprego? Tipo, sua personagem provavelmente não irá morrer logo uma vez que é o narrador.
SR: Hmm, eu não diria isso. [Risos] Existem muitas pessoas que podem falar. Eles podem mudar o narrador no meio da história. Eu certamente gostaria de pensar nisso, mas a verdade é que não vejo isso como uma garantia de emprego. Eu realmente vejo isso como outro modo para minha personagem ser importante para a história. Eu creio que isso torna esta personagem mais a mais importante para o programa, e isso nunca poderá ser uma coisa ruim. Mas eles podem escrever um episódio onde Suresh leva dois tiros na cabeça? Sim. Claro que podem.
2 - Complexo de castração é uma teoria da psicanálise desenvolvida por Freud pra explicar como a inveja determina a aproximação das crianças com cada um de seus pais.
3 - O GMAT – Graduate Management Admissions Test – é um dos exames mais difundidos no mundo. Além de sua utilização como pré-requisito básico para cursos de pós-graduação (como o próprio nome indica), o GMAT vem sendo constantemente utilizado em processos seletivos, até mesmo no âmbito nacional.
4 - História em quadrinhos das aventuras de Archie, Moleza, Verônica, Betty, alunos da Escola Riverdale, que formam uma banda de rock. São jovens dos anos 60 com suas aspirações e estilos de vida.
5 - Trekkie é o nome dado aos fãs da série Star Trek (Jornada nas Estrelas). Alguns destes fãs consideram o termo pejorativo e preferem ser chamados de trekkers.
Fonte: The A.V. Club
Tradução: 9thWondershttp://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1576171045464770602#
2ª Temporada I Notícias












































































0 comentários:
Postar um comentário